Tamara Nassif
O dólar abriu em forte queda nesta quinta-feira (3), dia seguinte ao tarifaço do presidente Donald Trump.
O republicano divulgou tarifas que ele considera recíprocas a produtos importados pelos Estados Unidos após o fechamento dos mercados, na véspera. O anúncio era amplamente esperado devido aos potenciais efeitos sobre o comércio internacional, até então difíceis de precificar pela falta de detalhes públicos.
Às 9h02, a moeda tombava 1,36%, cotada a R$ 5,618. Na quarta, fechou em alta de 0,24%, cotada a R$ 5,696, e a Bolsa variou 0,03% para cima, a 131.190 pontos.
Trump anunciou tarifas básicas de 10% sobre todas as importações dos Estados Unidos e outras mais altas sobre alguns dos principais parceiros comerciais do país. “É a nossa declaração de independência”, disse durante o evento na Casa Branca.
Ele exibiu uma tabela que listava as tarifas recíprocas, incluindo 34% sobre a China, 20% sobre a União Europeia e 10% para o Brasil.
“Estamos sendo muito gentis, somos pessoas muito gentis. Nós vamos cobrar aproximadamente metade daquilo que eles nos cobram. As tarifas não serão completamente recíprocas”, afirmou o republicano.
O principal receio em relação ao tarifaço é que ele aumente a inflação em uma ampla gama de produtos e distorça cadeias de suprimentos globais, especialmente se os países afetados revidarem com mais impostos.
Os efeitos ainda podem se estender para a atividade econômica dos Estados Unidos, que já tem dado sinais de desaceleração. O potencial inflacionário do tarifaço pode forçar o Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) a manter os juros em níveis elevados para conter a alta de preços, o que pode resfriar ainda mais a atividade econômica.
O cenário desenhado por especialistas é de uma “estagflação”, isto é, quando a inflação está elevada e a economia não cresce.
Os futuros dos índices acionários de Wall Street entraram em queda firme logo após o anúncio. O S&P 500 e o Nasdaq 100 marcavam perdas de 1,5% e 2,3%, respectivamente, às 18h30 (horário de Brasília) da quarta-feira, pouco mais de uma hora depois dos detalhes terem sido divulgados.
O tombo chegou às praças asiáticas. A Bolsa de Shenzhen perdeu 1,10% e Xangai caiu 0,24%. O índice Hang Seng, de Hong Kong, tombou 1,52%. Na Coreia do Sul, a queda do Kospi foi de 0,76%. A Bolsa de Tóquio encerrou a sessão em tombo expressivo de 2,77%.
“Foi pior do que os investidores esperavam”, disse Eric Beiley, diretor executivo de gestão de patrimônio da Steward Partners. “A princípio, os futuros subiram porque Trump disse que seriam ‘recíprocas’, mas a realidade é que isso é pior, com essas tarifas pesadas sobre o Japão e a União Europeia.”
Os japoneses enfrentarão uma taxa de 24%; os europeus, de 20%. China terá tarifas de 34% e o Vietnã, de 46%.
Já em relação ao Brasil, as taxas serão de 10%. “Saiu barato para o país. E faz sentido, afinal, temos déficits comerciais em relação aos Estados Unidos, então não seríamos alvo neste momento”, diz o economista André Perfeito.
A proposta de reciprocidade tarifária vinha para dar conta do déficit comercial dos Estados Unidos, especialmente agudo em relação a alguns países.
Antes disso, porém, Trump já havia implementado uma tarifa de 20% sobre produtos chineses, taxas de 25% sobre importações de aço e alumínio e tarifas de 25% sobre mercadorias de México e Canadá que violem as regras de um acordo comercial da América do Norte. Nesta quinta, ainda entrarão em vigor as tarifas sobre os automóveis importados.
“Daqui para frente, a dinâmica do dólar vai depender de qual fator irá prevalecer em resposta às tarifas. Se a economia americana absorver bem o choque, com baixo impacto na atividade e na inflação, a tendência é vermos o dólar se apreciar de maneira global”, diz André Valério, economista-sênior do Inter.
“Por outro lado, se o impacto das tarifas for extenso, criando incertezas e desaceleração da economia, ao passo em que os Estados Unidos se isolem do resto do mundo, a tendência é observar a continuidade do movimento de depreciação do dólar.”
Segundo o analista, o real “deve sofrer pouco”. Ele cita que o impacto sobre a balança comercial brasileira deve ser pequeno, já que o fluxo comercial entre os dois países não é o mais relevante por aqui.
Além disso, o Brasil tende a ganhar espaço de mercado nas exportações, especialmente em relação aos parceiros comerciais mais afetados pelas tarifas, como União Europeia e China.
“Essas regiões devem direcionar suas demandas para outro lugar, particularmente o agro brasileiro, que sofre grande competição com o agro americano. Além disso, o fato de o Brasil ter sido menos taxado, tornará os nossos produtos relativamente mais competitivos em relação aos outros países, o que pode permitir maiores exportações aos Estados Unidos.”