Paula Soprana, Vitor Antonio
Em uma área próxima de 4% de toda a capital paulista, as favelas abrigam 1,7 milhão de pessoas, 15% da população municipal. A densidade demográfica, que é a concentração de pessoas sobre a área, é 5,3 vezes à registrada no restante da cidade, segundo análise da Folha com base nos microdados do Censo de 2022.
Há uma média de 35 mil pessoas por quilômetro quadrado, considerando o conjunto de 1.357 favelas e mapeadas em São Paulo. A média no restante do município é de 6.600 pessoas –para esse cálculo, a reportagem excluiu a área das favelas.
No Rio de Janeiro, que abriga a Rocinha, a mais populosa do Brasil, a taxa média de moradores nas favelas é menor, de 25 mil por km².
Enquanto a centenária Paraisópolis, a favela mais populosa de São Paulo, tem densidade de 71,1 mil hab/km², locais como Castelinho, também na zona sul, chegam a registrar 145 mil hab/km². Como comparação, o distrito mais denso de São Paulo, desconsiderando favelas, é a República, onde vivem 26,2 mil pessoas por km².
Já a favela do Moinho, no centro de São Paulo se encontra no meio termo, com 53,7 mil hab/km². O governo estadual tem um plano para retirar os moradores do local.
Beatriz Miranda Vaz, 22, tem propriedade para falar das dificuldades da vida apertada em uma favela paulistana. Nascida e criada em Paraisópolis, a estudante de administração conta que o sobrado da família foi dividido em duas habitações para também abrigar sua mãe, irmã, cunhado e sobrinho.
Paraisópolis tem saneamento básico –ao menos em parte, pois existem pontos que esperam por obras de urbanização, como o entorno no córrego Antonico–, mas as ligações com a rede são repletas de improvisos.
No corredor de acesso à casa de Beatriz, compartilhado com outras quatro casas, todas as moradias utilizam o mesmo encanamento. “Diversas vezes temos problemas de esgoto voltando, o ralo vazando”, conta.
“São muitas casas em poucos metros quadrados, quando o vizinho está fazendo algum reparo em casa e precisa fechar o registro, a nossa água também é cortada”, detalha Beatriz.
O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) considera que a nomenclatura favelas e comunidades urbanas abrangem localidades popularmente chamadas de favelas, ocupações, comunidades, quebradas, assentamentos, grotas, baixadas, vilas, entre outros.
Ao analisar diferentes indicadores demográficos e de infraestrutura do Censo de 2022, o sistema de esgoto aparece como o principal gargalo das favelas paulistanas, com um déficit maior do que o do visto no abastecimento de água e na coleta de lixo, cujos índices se aproximam de 100%.
A rede de esgotamento sanitário é adequada em 81% das localidades. O número pode ser percentualmente alto, mas os outros 19% revelam um cenário de 263 favelas, que na prática abrigam 386 mil pessoas, mais do que a população de Barueri, na Grande São Paulo.
Na rotina desse grupo populacional, os resíduos vão para rios, lagos ou córregos –o caso de 14% das favelas, onde moram 268 mil –ou a fossas não conectadas à rede, fossas rudimentares, buracos e valas.
Pesquisadora do Centro de Estudos da Favela, ligado à Fapesp, Luciana Ferrara, que realizou pesquisas ligadas à água nessas localidades, afirma que houve evolução significativa nas coberturas de saneamento, mas que a ampliação do esgoto não seguiu a mesma velocidade da evolução do acesso à água.
Ela atribui isso, em parte, à descontinuidade do PAC Urbanização de Assentamentos Precários, iniciado em 2007, cessado e reinstalado no terceiro mandato de Lula (PT). Outro programa público que contribuiu para ampliar o acesso à água foi o Água Legal, da Sabesp.
“Depois de 2014, não teve continuidade o recurso federal que era repassado aos municípios para urbanização de favelas. As urbanizações seguiram com recursos municipais”, diz.
O abastecimento de água é praticamente universal, com 97% das residências com uma conexão à rede geral de distribuição, nesse caso a Sabesp. Cinco favelas, entretanto, não têm nenhum domicílio conectado à rede de água: a comunidade na rua Alexandre Davidenko, Jardim Morais Prado, Jardim Marilda, Jardim Natal e Rua Luís Mateus.
Para Ferrara, a infraestrutura pública é fundamental, mas não garante acesso total à água, em qualidade ou quantidade por habitante. “Há situações que levam o morador ao chamado gato, tanto de água quanto de despejo de esgoto de efluentes, mesmo com a infraestrutura, seja porque a casa não tem como reservar a água, porque a pressão da rede diminui, porque não conseguem nem pagar a tarifa social”, diz Ferrara, que também é professora da Universidade Federal do ABC.
Em nota, a Secretaria de Governo Municipal, por meio da Coordenadoria de Segurança Hídrica, diz que “o novo contrato de concessão, firmado entre a Prefeitura de São Paulo e a Sabesp, prevê a universalização dos serviços de saneamento básico até 2029, nas áreas informais e rurais”.
Em 70% das favelas, 100% das casas têm banheiro de uso exclusivo. No restante, o número é acima de 80%, e nesse caso, os banheiros são compartilhados entre mais domicílios. Há 103 favelas sem banheiro ou sanitário, que impactam a vida de 353 pessoas, sendo os piores índices em Parque Brasilândia, Vila Nilo e Nova Nardini.
Demografia
Seguindo a média brasileira, mulheres representam 51% da população nas favelas paulistanas. Em 80% das áreas, elas são maioria. O maior percentual de homens está em Cabuçu II, região norte, 60%.
Enquanto a população parda representa 45,3% dos brasileiros, segundo o último Censo, nas favelas de São Paulo o registro é de mais da metade, 52%. Brancos são 33% e pretos, 14%.
A população predominante nas favelas de São Paulo é jovem, na faixa de 20 a 24 anos (em 39% das localidades). A alfabetização média é de 93%. Destoa desse número Conjunto Parque Novo Mundo, na zona norte, com 20% da população sem saber ler ou escrever.