Ela ainda tem quase certeza que eu sei de tudo, praticamente um oráculo, um Google sem internet. Ajudo a interpretar textos, sei quem canta algumas músicas da MPB que ela adora, explico sobre a fotossíntese e dou respostas, muitas vezes colando da inteligência artificial, sobre matemática.
Mas, depois de dez anos da minha soberania como pai bonzão, a coisa está mudando e minha filha biscoita vai saindo do pacote e se tornando cada vez mais Elis.
Dia desses ela entrou no banheiro enquanto eu tomava banho e foi dizendo:
“Pai, sabe aquele meu amigo Gargamel? Então, ele fez uma coisa que fiquei muito chateada. Eu tava conversando o com Xexéu, no recreio, rindo, feliz. Aí notei que ele estava me olhando feio, desaprovando. Eu sei que ele gosta de mim, gosto da amizade dele, também, mas foi tóxico, fiquei muito triste.”
A menininha que eu brincava de a canoa virou e tentava salvar gente inocente do fundo do mar, agora traz para nossas conversas de chuveiro comportamentos questionáveis de meninos, esses, sim, do meu tempo.
“Acredita que os garotos ainda acham que chamar um ao outro de gay é uma ofensa, pai? Que época eles estão vivendo? Quem disse isso pra eles? Será que não conseguiram aprender nada de diversidade ainda? De respeito às orientações dos outros.”
Ao mesmo tempo que fico troncho de orgulho do meu serzinho se preparando para a defesa da pluralidade humana, já antecipo umas dores dos espinhos que a aguardam nesses enfrentamentos.
Em meninas pequenas, —de até duas décadas?— a gente até vai tirando um a um, em meninas maiores, alguns hão de cravar na pele com profundidade. Valha-me nossa senhora da bicicletinha.
E o desafio que é jogar junto um tal de Roblox, joguinho eletrônico com um gráfico confuso e cujas noções de profundidade e textura estão longe das minhas experiências cibernéticas. Era tão bom quando tudo era jogo da velha, jogo da forca e até um videogame mais tradicionalzinho.
“Tá indo bem aí, pai? Já conseguiu atravessar a ponte? Eu já estou quase no final da fase.” Suando em frente ao celular, não entrego os pontos tão facilmente. “Estou indo bem!”, minto na cara dura, com o boneco da minha aventura morto no primeiro pulo.
A primeira década de uma menina é a apresentação de um ensaio de personalidade que clama por direção, maquiagem, bom roteiro e anseia, ainda, mais o espetáculo em si do que o aplauso do público.
Mas reconheço, sem pudores, que há momentos que me seduzo mais pelo trilhar junto dela –rindo, descobrindo, sendo um tanto ingênuo— do que me preocupar com o pavimentar do caminho. Mesmo assim, não raro ganho a pecha de quem dá muita bronca. Vai entender.
A mãe dela diz que me preocupo demais com coisa do porvir, que ela é ainda criança. Pode ser. Antes de dormir, nesta semana, ela foi até o meu quarto e me lembrou disso com um chacoalhão.
“Pai, sabia que todos os dias, antes de dormir, eu me lembro de pelo menos duas pessoas que me fizeram feliz durante o dia? Pode ter sido qualquer coisa, alguém que contou uma piada, que foi gentil, que aceitou um abraço. Assim eu durmo mais tranquila. Quero fazer isso a vida toda.”
A primeira década de uma menina é uma beleza da natureza.
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