Como o diretor Marcel Ophuls buscou a verdade no cinema – 26/05/2025 – Ilustrada

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Inácio Araujo

Marcel Ophuls, um dos maiores documentaristas do cinema sonoro, morreu neste sábado (24), aos 97 anos. Ophuls, nasceu em Frankfurt, Alemanha, em 1927 e era filho do grande cineasta Max Ophuls. Teria entre 12 e 13 anos no início da Segunda Guerra.

Não por acaso, foi esse o acontecimento que marcaria a sua carreira como documentarista e, afinal, sua vida. Pois outra lembrança marcante que tinha foi da sua saída apressada da Alemanha quando tinha seis anos, num automóvel guiado pelo pai em direção à França. Ophuls pai era judeu e sabia bem que os tempos de perseguição estavam começando. Marcel assumiria a nacionalidade francesa em 1938.

Com a ocupação da França pelos alemães, Ophuls se deslocou para a Espanha e para Portugal, à espera de um navio para embarcar para os Estados Unidos. Lá, foram vários anos até abrir para seu primeiro filme em Hollywood, em 1947. Para ajudar a família nesse tempo que chamou de “vacas magras”, Marcel foi ator em “Prelúdio a uma Guerra”, de Frank Capra —interpretou um jovem da juventude hitlerista. Essa nascente carreira foi interrompida quando foi convocado como soldado para a guerra no Pacífico.

No pós-guerra, Max Ophuls conseguiu, graças a outro importante cineasta, Preston Sturges, realizar alguns filmes nos Estados Unidos, inclusive a obra-prima “Carta de uma Desconhecida”, de 1948. No final da década, a família voltaria à França. Marcel chegou a frequentar então o curso de filosofia da Sorbonne, mas o abandonou para seguir os passos do pai e também se tornar cineasta. Chegou a trabalhar como assistente de Max em seu último filme, “Lola Montès”, de 1955.

“Lola Montès”, hoje tido como um clássico do cinema francês, foi um fracasso monumental e ajudou a fragilizar ainda mais a saúde de Max, que morreria em março de 1957.

Marcel pensou em seguir os passos do pai, ideia que abandonou depois do fracasso de alguns trabalhos, em especial da comédia “Peau de Banane”, de 1963, que nem a companhia de Jeanne Moreau e Jean-Paul Belmondo tornou interessante para os espectadores.

Optou pelo documentário, que seis anos mais tarde renderia sua obra-prima, “A Tristeza e a Piedade”. Fazer a crônica da vida na cidade de Clermont Ferrand durante a ocupação alemã do país, tornou-se também um certo desgosto, já que, embora feito para a ORTF, a televisão francesa oficial, ficou proibido de passar em TV no país até 1981 —nos cinemas, pôde ser exibido desde 1971.

Ali, Ophuls destruiu a ideia, fomentada desde o pós-guerra pelo general De Gaulle, líder da resistência francesa durante a guerra, de que a França fora, em seu conjunto, um país unido e resistente. O mito prosperou, embora se soubesse que uma parcela nada desprezível da população tivesse aderido, seja aos alemães, seja ao regime colaboracionista de Vichy. Daí a proibição.

No entanto, Ophuls sempre negou que quisesse julgar o comportamento dos franceses. Chegou a dizer que em qualquer outro país ocupado as pessoas agiriam de modo semelhante. De fato, mas existe algo de implacável no simples fato de levantar essa questão, e a reação oficial foi pesada. Algo que tem a ver com sua vivência da Segunda Guerra.

Isso não impediu Ophuls de seguir em sua carreira de documentarista, sempre intransigente no levantamento de fatos —sobretudo os ocultos—, que culminaria, em 1988, com um Oscar para “Hotel Terminus”. Menos polêmico que “A Tristeza e a Piedade”, o filme tratou de uma figura importante da ocupação: Klaus Barbie, chefe da Gestapo em Lyon, que se tornaria conhecido como “o carniceiro de Lyon”. Um filme de sua pessoa e de seu tempo, como esclarecia o subtítulo do filme.

Pesava sobre Barbie, além das inúmeras mortes que justificaram o epíteto, o assassinato em 1943, de Jean Moulin, um dos responsáveis pela ligação da Resistência entre a França e o exterior, onde estava De Gaulle.

No mais, Barbie se envolveria na política latino-americana nos anos 1960, a convite do governo americano, agindo na Bolívia, antes de ser extraditado para a França, em 1983, onde foi julgado por seus crimes de guerra.

Entre um filme e outro, Ophuls tratou do Vietnã, da Irlanda, dos Estados Unidos, da reunificação de Berlim, sempre implacável na detecção e demonstração de atos inconfessáveis. “Não sou um homem gentil, nem um gentil-homem. Mas espero, em todo caso, ser uma pessoa tolerante. Não é preciso gostar de uma pessoa para se interessar por ela”.

Essa firmeza, assim como seus filmes, trazia a marca de alguém que atravessou a Segunda Guerra, viu a verdade desaparecer das telas e a reconstituiu tanto quanto pôde em seus trabalhos com espírito jornalístico e talento de cineasta.



Leia Mais: Folha

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